Depressão e ansiedade afetam diferentemente os sintomas de fibromialgia
Depressão e ansiedade influenciam de diferentes modos os sintomas corporais manifestados por pacientes com fibromialgia, de acordo com um estudo realizado na University of Iowa. Pesquisadores afirmam que isto pode explicar por que os tratamentos multidisciplinares incluindo intervenções psicológicas para fibromialgia são efetivos apenas para uma subpopulação de pacientes, sugerindo que o tratamento deve ser ajustado conforme os sintomas individuais que cada paciente manifesta. Diante disso, mais pesquisas se azem necessárias para avaliar se este tipo de abordagem ajustada é benéfico para os pacientes com fibromialgia.
O estudo que relata os achados, “Somatic symptoms presentations in women with fibromyalgia are differentially associated with elevated depression and anxiety”, foi publicado no Journal of Health Psychology. Pesquisadores recrutaram 191 mulheres com diagnóstico de fibromialgia. A maioria das pacientes (65%) tinha a doença há mais de 5 anos. Metade das participantes do estudo relataram serem afetadas por depressão ou ansiedade. Esta subpopulação era constituída da seguinte forma: 24% tinha tido altos níveis de depressão e ansiedade; 17% relataram altos níveis de ansiedade sem níveis elevados de depressão; e 9% disseram estarem deprimidas, mas sem ansiedade. Além de examinar os níveis de depressão e ansiedade, a equipe de pesquisa mediu a fadiga, presença de perturbações do sono, catastrofização da dor (exagero), medo de movimento e intensidade da dor, usando ferramentas validadas. Os dados mostraram que a catastrofização da dor, medo da dor e intensidade da dor estavam ligados com ambas, ansiedade e depressão, e ambas influenciavam independentemente a dor e os sintomas relacionados com a dor. Por outro lado, o efeito não era viciante. Isto foi uma surpresa para os membros da equipe, os quais pensavam que a ansiedade e a depressão—quando presentes ao mesmo tempo—exerciam um efeito amplificador que levava a sintomas ainda mais graves.

Em contraste, a fadiga e os problemas de sono pareceram ser influenciados apenas pela depressão. Embora alguns estudos tenham sugerido que os problemas do sono podem deflagrar depressão em pacientes com fibromialgia, pode haver outras explicações para esta associação. Os pesquisadores disseram que outra possibilidade é mecanismos comuns—como inflamação ou sensibilização do sistema nervoso central—poderem originar tanto problemas de sono como depressão, além da fibromialgia. As observações feitas pela equipe sugerem que os tratamentos multidisciplinares em uso atualmente, incluindo intervenções psicológicas, podem ser mais efetivos para pacientes com níveis baixos de ansiedade e depressão, enquanto as abordagens mais moderadas são necessárias para os pacientes com níveis mais altos de depressão/ansiedade. Segundo os pesquisadores, “Estes resultados sugerem o possível benefício proporcionado pelos tratamentos dirigidos ajustados para o controle dos sintomas em indivíduos com fibromialgia. As diferenças identificadas em termos de fadiga e qualidade do sono em relação à depressão versus ansiedade fornecem uma direção para estas intervenções clínicas dirigidas.”
Estudos futuros deverão se concentrar em avaliar se as intervenções dirigidas aos pacientes com fibromialgia que apresentam vários níveis de depressão e ansiedade são mais efetivas do que as abordagens em uso atuais.

Fibromialgia: a dor crônica que impediu a turnê de Lady Gaga
Em setembro de 2017, foi anunciado que Lady Gaga tinha cancelado sua turnê europeia, que deveria começar na semana seguinte, por causa de uma “forte dor física que havia comprometido sua habilidade de se apresentar”. Ela tem fibromialgia e produziu um documentário no Netflix— Gaga: Five Foot Two—para despertar a consciência sobre esta condição de longa duração. Uma declaração diz: “Ela planeja passar as próximas 7 semanas trabalhando proativamente com seus médicos, para se curar disto e dos traumas do passado que ainda afetam seu dia a dia e resultam em uma forte dor física no corpo. ela quer dar aos fãs a melhor versão do show que criou para eles, quando a turnê for retomada.”
Todos ouvimos falar da Lady Gaga, porém a síndrome da fibromialgia (SFM) pode ser mais misteriosa. Trata-se de uma condição difícil de diagnosticar, explicar ou tratar. E muitas pessoas que sofrem desta condição dizem que lutam para encontrar profissionais médicos que levem seus sintomas a sério. A SFM é uma condição de longa duração que causa dor disseminada. Seus sintomas debilitantes incluem cansaço extremo, dores musculares, dificuldade para dormir e se concentrar; cefaleias e inchaço também são comuns. No caso da Lady Gaga, é fácil ver como ela a princípio pode ter suprimido estes problemas para fazer a turnê e se apresentar. Entretanto, a fadiga e as dores persistem mesmo quando você descansa, e podem causar um esgotamento bem maior do que o cansaço normal.

Pessoas com SFM frequentemente percebem que uma lesão bastante inócua, como um machucado na ponta do dedo do pé, dói mais intensamente e por um tempo maior do que deveria. E até mesmo um toque de leve, que não deveria machucar, pode produzir uma sensação dolorosa desagradável. A fadiga significa que você precisa dormir muito, mas acorda se sentindo grogue, rígido e dolorido. Até mesmo os processos mentais parecem vagarosos, de modo que se torna um enorme esforço se concentrar ou aprender algo novo, e sua fala pode soar lenta e um pouco confusa. Os pacientes chamam isto “fibro-névoa”, e não está claro se Lady Gaga sofre disso ou não.
A SFM tipicamente é diagnosticada em pessoas como Lady Gaga: do sexo feminino e na faixa etária de 30-50 anos (ela tem 31 anos). Pode afetar até 1 pessoa em cada 20, no entanto não há testes definitivos, por isso é difícil fazer estimativas numéricas. Também pode haver um componente genético aliado a fatores ambientais. A SFM certamente é diagnosticada com mais frequência hoje do que quando foi identificada pela primeira vez, como causa de uma dor crônica e incapacitante, em 1976. Pode coexistir com outras condições causadoras de dor articular, incluindo artrite reumatoide e lúpus. Embora você possa pensar que, por não haver cura, não há justificativa para o diagnóstico, as pessoas que vivem com dor e múltiplos sintomas inexplicáveis durante muitos anos costumam achar que saber que têm SFM as ajuda.
O diagnóstico é baseado em uma história de dor amplamente disseminada e pontos de pressão. Um examinador o estimula em 18 locais (aplicando uma pressão suficiente para empalidecer a unha do examinador). Se 11 dos 18 pontos estiverem inusitadamente sensíveis, isto sustenta o diagnóstico.
Ninguém sabe a causa da SFM. É provável que exista algum distúrbio no modo como a dor é processada no cérebro das pessoas que têm esta condição. existe um ciclo em que a dor torna a pessoa deprimida e ansiosa, e isto piora ainda mais a experiência dolorosa. Os céticos podem dizer que “é tudo coisa da cabeça”, mas toda dor é processada no cérebro, por isso este tipo de observação depreciativa e desdenhosa não faz sentido. Há sugestões de que a SFM é mais comum entre pessoas que sofreram abuso físico, emocional e sexual na infância; a evidência é fraca, mas esta é uma área que necessita de mais estudos. Lady Gaga tem sido bastante aberta quanto ao fato de ter sido estuprada aos 19 anos e sua música anti-estupro, Swine, fala do trauma que ele viveu.

Como não cura específica, viver com SFM significa estar consciente dos deflagradores (estresse, luto, outras doenças ou cirurgia, mudanças de tempo, viagem e privação do sono, por exemplo) que podem causar uma exacerbação, e descobrir um modo de viver, trabalhar, praticar exercícios e se alimentar que dê certo para você. Exercício, fisioterapia, adaptações no local de trabalho, aconselhamento e técnicas de gerenciamento do estresse podem ajudar. O tratamento farmacológico com anti-inflamatórios, antidepressivos e fármacos usados no tratamento da epilepsia já foram, todos, experimentados, mas nenhum se ajusta facilmente.
Entretanto, Lady Gaga – e seus milhões de fãs – pode criar coragem diante do fato de que, não importa o quão ruins forem os sintomas, a SFM não causa dano articular a longo prazo e muitas pessoas melhoram com o passar do tempo. Todavia, não é possível prever quanto tempo a recuperação pode demorar, ou se os sintomas irão voltar, por isso é tão difícil saber quando ela poderá se sentir pronta para voltar a se comprometer com sua turnê outra vez.