O que correr faz com seu cérebro?

Na categoria Medicina Esportiva

Neurocientistas conduziram um estudo com corredores de esteira, atletas de ultramaratona (e diversos animais de laboratório) para investigar os efeitos da corrida na massa cinzenta. Pode parecer óbvio que conforme você se esforça em uma corrida de longa distância, uma gama de diferentes sensações o invada: desde agonia a euforia, a atividade provoca um efeito enorme em seu estado mental. É uma ideia intuitiva que vem ganhando espaço entre um grande número de neurocientistas que a tratam com seriedade. Nos últimos anos, pesquisadores começaram a mostrar o que de fato acontece nos picos e vales da massa cinzenta conforme a pessoa corre.

Homens E Mulheres De Camiseta Vermelha Estão Prontos Para Correr No Campo De Atletismo

As descobertas deles confirmam o que muitos corredores sabem por experiência própria: podemos usar a corrida como uma ferramenta para melhorar a forma como pensamos e nos sentimos. E agora, estamos aprendendo, de forma específica, por que razão correr pode devolver a concentração, acabar com o estresse e melhorar o humor. Além de descobrir o porquê, se você tiver sorte, pode ter um vislumbre do nirvana.

Seria loucura acreditar que correr é uma solução universal para todas os seus desafios psicológicos. De fato, da perspectiva do seu cérebro, você talvez não queira forçar tanto. Neurocientistas alemães examinaram o cérebro de alguns competidores antes, durante e depois da TransEurope Foot Race, prova em que os competidores dão tudo de si por mais de 4800 quilômetros, por 64 dias consecutivos. Durante esta ultramaratona absurda, a massa cinzenta desses corredores encolheu, em volume, em 6%: a atrofia “normal” associada à idade avançada é de apenas 0,2% ao ano. Felizmente, essa história não termina tão mal, após oito meses os cérebros destes corredores estavam de volta ao tamanho normal.

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Mas se cobrir grandes distâncias pode ser contraprodutivo, ficou claro agora que corredores mais moderados podem ter benefícios reais. Primeiro, em um mundo onde os smartphones nos bombardeiam com estímulos e distorce os limites entre trabalho e vida pessoal, uma série de estudos recentes mostram por que sair para correr pode ajudar a pessoa a recuperar um senso de controle.

Um experimento de 2018 da Universidade de West Michigan, por exemplo, mostrou que correr rápido por meia hora melhora o limiar da “frequência flicker cortical”. Que é associado a uma melhor habilidade de processar informações. Dois outros estudos, um da Lithuanian Sports University e um da Nottingham Trent University, mostraram que corrida intermitente melhora aspectos das “funções executivas”. Que são um conjunto de faculdades mentais de alto nível que incluem a habilidade de concentração, ignorar distrações, alternar tarefas e resolver problemas.

Feliz Jovem Atleta Afro Americano Ouvindo Música E Descansando Após O Treino Nas Escadas Na Rua

Entre os jovens estudados, ganhos mensuráveis foram visíveis após 10 minutos de sprints intermitentes. Também mostraram acúmulo após sete semanas de treinamento.

“Uma pesquisa sueca mostra que correr pode desativar ao menos uma das vias neurais de estresse biológico mais importantes”

Um estudo por imagem do cérebro, liderado por David Raichlen da Universidade do Arizona associou esses resultados de forma clara. As diferenças foram inegáveis entre a atividade cerebral de corredores sérios em comparação com não corredores compatíveis. Por razões óbvias, não é possível correr enquanto se está dentro de um tubo tendo seu cérebro analisado, então os neurocientistas estudaram o cérebro em repouso. Primeiro, viram um aumento na atividade coordenada em algumas áreas, em especial na parte frontal do cérebro, conhecida por se envolver em funções executivas e memória de trabalho (memória operacional). Faz sentido.

Atleta Alegre Correndo Ao Longo Da Colina No Verão

Em segundo lugar, viram atenuação relativa das atividades da Rede Neural Padrão (DMN), um conjunto de áreas cerebrais acionadas sempre que a pessoa se sente distraída ou fica ociosa. Sua DMN é a fonte de seu monólogo interior, o instigador da divagação mental e a voz que rumina seu passado. Seus efeitos nem sempre são bem-vindos ou úteis, e já foram associados à depressão clínica.

O estudo de Raichlen foi preliminar, mas se corroborado no futuro, dará novo fôlego a ideia de que correr pode ser uma forma de meditação “Atenção Plena” em movimento. Varreduras cerebrais mostram que meditar e correr podem ter um efeito, de algum modo, similar no cérebro; motivando ao mesmo tempo as funções executivas e reduzindo o ruído da Rede Neural Padrão (DMN). Lembrando que isso parece certo do ponto de vista intuitivo, no meio de uma corrida, é provável que você esteja imerso no momento presente, sintonizado com seu corpo, e consciente de sua respiração. Estes são objetivos-chave das práticas mindfullness. Amarrar seus tênis de corrida e sair para correr poderia, portanto, ser uma maneira de colher alguns dos benefícios psicológicos da Atenção Plena.

Empresas também estão de olho nos efeitos terapêuticos da corrida: Há pouco tempo eu trabalhei com uma marca de tênis de corrida, a Saucony para criar um podcast sobre os efeitos da corrida na mente.

Foto De Mulher Correndo Ao Lado De Seu Filho

Tudo isso pode começar a explicar porque algumas pessoas consideram que correr, assim como a Atenção Plena, pode ser útil para superar o estresse e a depressão. Pesquisas recentes do Instituto Karolinska, na Suécia, mostraram a nível químico como correr pode desativar ao menos uma das vias neurais de estresse biológico importantes.

Quando se está sob estresse, os processos metabólicos do fígado podem converter o aminoácido triptofano em uma molécula com o curioso nome de quinurenina. Parte desta quinurenina chega ao seu cérebro, onde o seu acúmulo foi bastante associado com depressão resultante de estresse, transtornos de ansiedade e esquizofrenia. Ao se exercitar, seus níveis da enzima chamada quinurenina aminotransferase aumentam nos músculos. Esta enzima quebra a quinurenina na molécula relacionada: ácido quinurênico, que, lembre-se, não pode entrar no cérebro. Desta forma, exercitar seus músculos esqueléticos ao correr elimina da corrente sanguínea uma substância que pode causar problemas de saúde mental. É importante notar que, por motivos técnicos e éticos, alguns detalhes deste mecanismo foi comprovado apenas por testes em animais de laboratório.

Homem Correndo Na Berma Da Estrada

A princípio, não fica óbvio por que trabalhar os músculos da perna teria um efeito direto em seu estado mental. Este estudo proporciona uma visão rara da, muitas vezes misteriosa, ligação entre corpo e mente, e é um poderoso lembrete de que seu cérebro é apenas mais um órgão no seu corpo. O que você escolhe fazer ao seu corpo vai, de modo inevitável, ter consequências psicológicas.

Correr pode fazer mais pelo seu humor que reduzir o estresse. Algumas almas sortudas se gabam por suas experiências com o “barato do corredor” que, segundo eles, é uma poderosa sensação de êxtase e invencibilidade. Correr nunca me provocou tal sensação, mas sabemos bastante dos efeitos químicos potenciais que a corrida desencadeia no cérebro.

A ideia que a população em geral tem da “carga de adrenalina” nasceu nos anos 80 e 90, quando uma série de estudos mostraram que os níveis de beta-endorfina aumentam na corrente sanguínea durante a corrida. A beta-endorfina tem como alvo os mesmos receptores dos opiáceos, e possui efeitos biológicos similares. No entanto, a teoria sempre foi falha já que a beta-endorfina não atravessa tão fácil a barreira hematoencefálica. E se não chegou ao seu cérebro, como poderia deixá-lo “alto”?

Em 2008, neurocientistas alemães comprovaram isso. Os pesquisadores usaram ressonância magnética funcional para mostrar que em corredores treinados, os níveis de beta-endorfina, de fato, aumentam no cérebro após uma corrida de duas horas. Níveis elevados de endorfina no cérebro também foram correlacionados ao sentimento de euforia que os corredores relatam ter.

Não são apenas os opiáceos cultivados no quintal de casa que reduzem a dor e elevam seu espírito durante a corrida. Os endocanabinoides são uma vasta família de substâncias químicas corporais que, assim como a cannabis, abrem os receptores canabinoides do cérebro. Os níveis de endocanabinoides circulando no sangue aumentam depois de 3 minutos de corrida moderada na esteira. Experimentos rigorosos, conduzidos em ratos de laboratório, mostram que os endocanabinoides induzidos pela corrida são os responsáveis por  diminuição da ansiedade e da percepção de dor. É uma boa aposta dizer que o mesmo mecanismo funciona em nossas mentes. Para muitos de nós, correr pode nunca desencadear uma onda como o uso de drogas. Mas sabemos agora o motivo por que uma corrida, que parece que vai matá-lo a princípio, pode deixá-lo satisfeito e tranquilo na reta final.

Alguns desses estudos são preliminares e precisam de maiores explicações. E, com certeza, seu gênero, perfil genético, aptidão física, expectativas e muitos outros fatores além vão influenciar o modo como o seu cérebro responde à corrida. Mesmo assim, eu levo todos esses estudos neurocientíficos como boas novas.

Mesmo que os benefícios físicos da corrida e dos exercícios aeróbicos já sejam consolidados, começamos a ver por que correr pode ter profundos benefícios para a saúde mental também. Com sorte, saber disso vai redobrar a sua determinação de sair por aí e correr com mais frequência.

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